Na sombra de um coqueiro

Divirta-se com Causos, Crônicas, Poesias, Família, Fogão de lenha, No pé do coqueiro, Tocando a Tuba. (Vedada pelo autor a Criação de Obras Derivadas) Você não pode reproduzir, alterar, transformar ou criar outra obra com base nesta.

27.6.06

Dér Mundo - O homem mais bravo do Mundo

O homem mais bravo do mundo

Carlos Giordano Jr.

Dér Mundo era filho de uma inspetora de alunos no Sud Mennucci, templo sagrado do ensino secundário em Piracicaba. Por isso, Serginho Dér Mundo era terrivelmente perseguido pelos amigos com brincadeiras que ele mesmo as odiava. O apelido veio disso. De tão bravo que era com as pegadinhas que nunca as aceitava, acabava brigando com tudo e com todos, e acabou levando o codinome de “El hombre mas bravo del mundo” e que abreviado virou Dér Mundo (no idioma caipiracicabano).

Dér Mundo cresceu e foi parar na Universidade. Com os amigos acabou fundando a famosa República “A Cuzada” que ficava ali na Barão de Itapura em Campinas. As festas rolavam sempre numa boa, com muita badalação e alegria. Mas, pegar no pé de “Dér Mundo” era o deleite da moçada.

Um dia, tudo combinado e acertado com planos previamente arquitetados, resolvemos moer a cabeça de Dér Mundo. Ele chegou do centro da cidade trazendo uma linda calça jeans que comprara para sua namorada, pagando os tubos. A calça veio embrulhadinha pra presente. Ele deixou-a em cima da mesa e foi para o banho, preparando-se para a festinha que faria pelo dia dos namorados. Abrimos com jeitinho o embrulho, e com muita safadeza, trocamos a calça por outra suja e velha que a empregada deixara na dispensa. O pacote foi refeito esperando pelo seu dono.

Não se contendo de alegria, Dér Mundo resolveu mostrar pra Galera a bela compra que tinha feito antes de sair e abrindo a caixa notou a grande diferença.

- Puta merda, trocaram a calça…Não acredito, que loja desgraçada, paguei uma puta nota e olha a droga que me puseram no embrulho.

Revoltado, Dér Mundo correu para o ponto de ônibus a alguns metros acima, na Avenida, e ali ficou espumando a boca e xingando o mundo. Simplesmente puto, revoltado com a vida.

Pegou o ônibus para ir trocar a calça.

Ônibus lotado às seis da tarde.

Passou em frente da A Cuzada e viu a todos nós na maior gargalhada segurando a verdadeira calça estendida. Dér Mundo desceu do ônibus uns sete pontos avenida abaixo, subiu a ladeira correndo e babando e perdeu a amizade com todos por muitos dias.

Tenho saudade de Dér Mundo.

Esse era realmente o cara mais bravo do mundo.

Só se lascava.

criado por giordanocarlos    16:06 — Arquivado em: Causos

10.5.06

Urubú na grande tela

Urubú na grande tela

Carlos Giordano Jr.

Toda manhã de Domingo, meu pai nos presenteava com “cenlão” cada um, e eu e meu mano descíamos a Rua Moraes Barros com destino certo às dez da matina na porta do famoso Politeama. Cinema bonito, espaçoso, onde curtíamos fitas memoráveis, com direito a risos e choros.

Antes da sessão comprávamos balas num bar ao lado do cinema, ainda na praça José Bonifácio onde hoje está edificado o Banco Itaú. Na esquina tinha uma pastelaria, que também servia caldo de cana à distinta freguesia que perambulava pela praça. Na outra esquina, estava o Daytona, antiga lanchonete que fôra substituída pelo atual Banco Sudameris, local perigoso, onde toda a garotada era proibida pelos pais de freqüentar, pois, ali se encontravam de tudo o que era ruim, como sanduíches com pózinho, coca-cola com bolinhas, bebidas com drogas para viciar criancinhas, e tudo o que era desconhecido pelos mais velhos absorvidos psicologicamente como negativos à boa formação moral dos filhos.

Já existia a possibilidade de flertar alguém, mesmo que remota, mas existia. Havia um repúdio em vestir calça-curta nos meninos, e nas meninas, trancinhas e maria-chiquinhas eram proibidas, pois haveriam de tornar evidentes a falta de idade para a paquera. Mesmo assim, apesar de tudo muito recatado, coroado de muita timidez, nós nos sentíamos verdadeiramente independentes, capazes, projetos insólitos de vida adulta.

A manhã de Domingo era tão esperada, que fazia da semana uma fração de hora. O filme não era o principal, mas o que valia era a possibilidade de estar lá, ao lado, ou pelo menos perto daquela garota que achávamos bonita, encantadora, graciosa, e que por ela, imaginávamos estar terrivelmente apaixonados, porém desprovidos de coragem humana para dizer-lhe isso. Amor de Platão, quanto mais longe melhor.

A primeira menina que me lembro por achá-la bonita e inatingível foi a Tânia Elizabeth. Me recordo vendo-a toda vestida de branco, com rendinhas, fitas em laço às costas, sapatinhos brancos de verniz e tiara na cabeça, ornamentando seus belos cabelos encaracolados e negros, correndo e brincando de pega-pega na escola. Nunca pude falar isso à ela, embora a tivesse visto várias vezes na sessão matinê.

As possibilidades de êxito na conquista de uma garota eram tão remotas, que nos faziam desistir antes de tentarmos alguma coisa com elas, pois os mais velhos, garotos idosos de doze, treze e até catorze anos eram os mais cobiçados pelas meninas de dez anos, e eu com nove, coitado…nem pensar. Imaginava que com o tempo haveria de chegar a minha vez, porém quando tive por poucos dias (365) os catorze anos, as garotas que me interessavam, tinham interesse pelos garotos de dezoito, e vou lhes dizer que não tive muita chance com elas, pois sempre tive cara de bebê Jonhson. Barba nunca veio na cara, nem pro bigodinho de malandro.

Existia também o cine Colonial na Rua Benjamim Constant, ao lado do Posto de Gasolina de mesmo nome. Ali, sempre tivemos mais chances com o sexo oposto, mas não com garotas, e sim com as pulgas que infestavam o local, tornando a sessão comédia, verdadeiramente hilária, piada pura, maior coceira, só gargalhadas.

Vou mais longe quando lembro do cine Paulistinha, lá na Paulista. Que inferno, já naquela época as pulgas foram comidas pelos piolhos, os chatos estavam gordos de sangue.

Um dia soltaram um urubu dentro do cinema, na hora da sessão. A ave saiu desembestada rumando à luz da tela num vôo único, ímpar e derradeiro, pois se estatelou no pano torcendo o pescoço com a porrada. Fim de sessão. Só risadas.

O cinema naquela época era bom pra surdos, mudos e até para daltônicos (alguns filmes eram mudos e em preto e branco). Só não prestava muito para cegos, a não ser na hora do intervalo ou no fim da fita na hora de ir embora. Maior barato.

criado por giordanocarlos    22:21 — Arquivado em: Causos

9.5.06

Zito flambado no Perequê

Zito flambado

Carlos Giordano Jr.

Foi no verão de 1984, quando pegamos nosso Fusca zero bala da falecida Cia. Atlantic de Petróleo, e nos metemos na estrada rumo ao litoral. Sem grana como sempre.

Zito, Cristina, eu e minha adorável Lúcia enchemos o Fuscão de muita alegria, adrenalina e sonhos de liberdade.

Zito gostava de tudo certinho, tinha acabado de conseguir emprego de engenheiro numa empresa de concreto, não tomava Sol nem morto, debaixo da desaprovação da sua Cristina, que reclamava incansavelmente da brancura “Rinso” (essa eu tirei da baú da minha avó) de Zito. Era meu amigo já da infância feliz que tivemos em Piracicaba.

Cristina também, amiga da Lúcia, morava lá na XV de Novembro, perto da casa alegre da Tia Leni, era exigente como só e morria de rir com as palhaçadas que fazíamos quando estávamos juntos. Nossa vida era uma grande piada. Que delícia. Éramos pobrinhos, mas limpinhos.

Voltando ao tema viagem, em poucas horas chegamos ao Guarujá. Naquela época era muito legal estar ali com os amigos. A água do mar ainda não cheirava a cocô e a paisagem era muito tranqüila.

Acabamos por optar fazermos uma parada para o almoço na praia do Perequê, onde existiam alguns restaurantes de pobre, mas também limpinhos. O dinheiro era tão curto que se esticasse muito, enrolava de volta pro bolso, principalmente o de Zito. (Confesso que ele vai ficar muito puto com isso, mas depois vai rir também da nossa pobreza).

Depois de muito custo, escolhemos o restaurante de melhor custo-benefício que se destacava dos demais pela sua varanda de frente para o mar calmo do Perequê.

Cervejinhas comedidas, pão com azeite Maria, tudo para encher a pança dos famintos antes da chegada do prato pedido - um filé à parmegiana que não tinha nada a ver com o estilo do local, mas tudo a ver com nossa condição financeira.

Que dureza desgraçada. Pobre só se lasca. O prato demorou mais ou menos uma hora para ser feito, e quando chegou, a fome era tanta que não esperamos Zito voltar do deságüe no banheiro lá do fundo do restaurante. Metemos o garfo na assadeira e destruímos aquele tímido filé, feito com muita falta de criatividade e de competência. E, pasmem, de repente, vem de lá do fundo um estouro absurdo, um barulho que nos assustou muito e a todos os que estavam ali presentes e em seguida, a voz de Zito, correndo e gritando: 

- Fogo, fogo, corre negada….tá pegando fogo no restaurante!!!

Zito saiu do banheiro e encontrou-se com as chamas de um botijão de gás que havia explodido na cozinha, lançando o pânico em todos os funcionários que saíram correndo atrás dele. No que Zito passou por nós na mesa, largamos até as havaianas debaixo das cadeiras e nos picamos dali. 

O saldo: Não pagamos a conta, lógico. Economizamos a grana que não tínhamos e acumulamos riso para toda uma vida pela aventura de “Zitão flambado no Perequê”.

Abraço especial pra ele.

criado por giordanocarlos    21:05 — Arquivado em: Causos

Macedônia é alí mesmo

Restaurante do Macedônio em Guaraparí - ES

Carlos Giordano Jr. 

A caminho de Porto Seguro, resolvemos parar em Guarapari no Espírito Santo para pernoitar. À noitinha fomos ao restaurante do Vicente em Nova Guarapari. Um sujeito distinto nos recebeu na porta do bistrô. Local rusticamente decorado, com uma graça impar e estilo único, abrandava o cansaço da longa viagem de 1000 km que fizemos naquele dia.

Vicente era Macedônio, e sua cozinha podia ser vista do salão onde nos acomodamos tranquilamente, mas já com o desejo insano de satisfação gastronômica. Nos serviu com uma garrafa de Grappa Italiana de primeira, deixando-a sobre a mesa como num convite para a embriagues. Não existia cardápio, não existia comanda, não existiam garçons incomodando nosso prazer.

O chef nos perguntou sobre nossos gostos. E invariavelmente, à beira da praia, pedimos lagosta, pescado assado e camarão salteado com wisky. De anti-pasto, berinjelas quase negras tostadas na chapa com azeite de oliva extra virgem, exalando perfume de ervas finas, decoradas com uma fina fatia de anchova salmonada, um molho delicado de tomates italianos coberto por lascas de parmesão, decoravam o prato deliciosamente preparado com requinte e elegância. Cervejinhas geladas aproximavam nosso paladar do desejo da satisfação que aquele momento nos traria. Porções generosas de alho curtidos no azeite com orégano eram enfeites para as torradas de pão italiano, ciabattas aquecidas no forno à lenha, cobertas com pimentões vermelhos descascados, tostados no forno e temperados com azeite e orégano ao estilo mediterrâneo fechavam o pacote de emoções.

Estávamos, eu, meu irmão e Fernando Basso, aproveitando sobremaneira os deleites daquela ocasião, que infelizmente não se repetiria mais. Vicente, como fosse um anfitrião de longa data conhecido, pilotava no fogão as panelas que se enchiam de produtos naturais e extremamente frescos, que nos foram apresentados “in natura” à mesa, antes da escolha.

Ficamos ali por algumas horas, rindo da vida e comemorando nossa alegria de viver.

A garrafa de Grappa descendo seu nível, aumentou ainda mais nosso prazer e contentamento. E lá veio Vicente com o melhor de si, nos servindo as caudas de Lagosta, gratinadas na manteiga com ervas, depois o lombo de badejo assado com molho de alcaparras e os generosos camarões salteados no wisky foram servidos com uma porção de arroz decorados com frutos do mar.

Na hora da conta, Vicente estimou um valor pela noite de prazeres macedônicos e disse que se não estivéssemos contentes poderíamos ir sem lhe pagar nada. Ele sabia servir com humildade e cativar seu cliente pelo estômago.

Não tenho mais nada que contar.

Procure Vicente.

criado por giordanocarlos    9:33 — Arquivado em: Causos, Fogão de lenha

7.5.06

Levando pau.

Levando pau…

Carlos Giordano Jr.

A idade ia passando, e a vontade de crescer era grande. Aos 9 anos aprendi a dirigir. O professor, meu pai, era muito bravo, não permitia erros. E, de fato errar no volante significa acidente e acidente é sinônimo de morte. Cruz credo!

A DKW 67 tinha 3 marchas e a alavanca do câmbio era localizada ao lado direito do volante, oposto à seta. Com motor de dois cilindros, era necessário colocar óleo misturado com a gasolina para lubrificar os pistões, o que fazia resultar da combustão uma grande fumaceira na descarga. O motor funcionava em alta rotação, portanto bastava encostar o pé no acelerador e o giro ia aumentando devagar mas sem parar, até que se tirasse o pé de medo de explodir. Para sair engatava-se a primeira marcha, e tinha que soltar o pé da embreagem bem devagar senão o carro desembestava a cantar pneu ou a apagar o motor por falta de força.

Dei muitas voltas no quarteirão, me borrando de medo, mas sem que meu pai soubesse. Coitado!

Aos Domingos antes da macarronada, tirávamos o carro para fora da garagem e então com muito carinho, tentávamos transformá-lo num carro novo. Lavando, consertando, costurando os bancos e os tapetes rasgados, tentando matar as baratas que o habitavam, polindo e escovando, passávamos horas nos divertindo. E, depois aquela voltinha na quadra. Que legal. Meu pai nunca deixava, mas de pouco adiantava.

 A sensação que se tinha era a de poder dirigir o mundo. As crianças do bairro se espantavam ao me verem dirigindo a máquina, e quando podia, saia com meu pai em curtas viagens que me permitiam treinar sempre mais minhas habilidades no volante.

Depois da DKW, veio outra e outra e outra, até comprar uma Fissori que era o modelo de luxo da DKW, branca na lata, com teto de vinil preto, painel e volante de jacarandá e bancos de couro vermelhos. Ô fissura danada por aquele carro. Só quando a Volkswagen comprou a fábrica da DKW mandando-a para a Argentina, despertou no velho o interesse em mudar de marca. Comprou uma Variant azul calcinha, depois um fusca com “vidros bolha”, um Opala SS cor de abóbora, e um lindo dia apareceu em casa com um Gordini 1969 nos dando de presente para irmos à escola. Sem carteira de habilitação. Que pai irresponsável.

Reformamos o Gordini, tratamos dele como fosse uma Ferrari. Ficou lindo. Até que uma noite, meu irmão saiu para um passeio vestindo sua camisa de Voil tradicional, e calça de Tergal, calçando seu sapato de cromo alemão, bico fino e guiando a nossa máquina, escorregou na água da chuva da Rua Boa Morte e bateu num Corcel. Meu pai tacou fogo no tomóve. Ficamos a pé.

O sonho de todo moleque é sem dúvida atingir a maioridade, e tirar a carteira de habilitação. Ser livre. E o meu também foi o mesmo.

Já tinha bastante experiência quando chegou minha vez. Haviam nove anos que sabia dirigir e, ao completar a maioridade em Outubro de 1979, me mandei numa auto-escola querendo passar por cima de todas as leis para obter minha licença. Eu era o bom no volante!

No final do ano, minha família se preparava para passar as férias no litoral, e o velho pai havia prometido que eu iria dirigindo, como presente pela conquista da habilitação. Porém, quis o destino que, no dia marcado para o exame de percurso e baliza eu, muito confiante e experiente nem me preocupasse…

Às sete da matina, em frente a Fábrica da Boys, era o primeiro da fila, e aguardava ansioso o Delegado chegar. Fiz a baliza de olhos fechados! Bingo.

- No percurso então é que vou dar um show…(pensava alto o piloto)

Entrei na Brasília junto com o Delegado, cumprimentei-o dando a partida no motor. Ele disse:

- Pronto, podemos ir.

- Certo, doutor.

Desci a ladeira e ao chegar na esquina com a Av. Beira Rio, a 80m do ponto de partida, pisei na embreagem e no freio e…Putaqueupariu, morreu o motor. Disfarcei, com cara de bosta. Dei a partida. Motor gelado, não pegou. Dei de novo. Saco. De novo…Pegou! Seu doutor ordenou:

- Vira aí e pode voltar.

- Mas, doutor, o motor estava gelado. O senhor mesmo viu…

- Pode voltar.

Estava encerrada ali minha oportunidade de ser livre, de ir e vir, de dirigir sem medo de ir preso. E, como a Delegacia de Trânsito entraria em férias coletivas, somente depois de Fevereiro do outro ano é que teríamos novo exame.

Passei o maior vexame com meu Pai e meu irmão.

Liberdade não se tem, se conquista.

criado por giordanocarlos    11:21 — Arquivado em: Causos

5.5.06

Na Fazenda do Vavate

Na Fazenda do Vavate

Carlos Giordano Jr.

Seria insuportável para qualquer mortal viver sem gozar aquelas merecidas férias de verão ao lado dos pais, irmãos, primos e parentes na fazenda do Tio Vavate em Itú, lá no bairro do Apotrebú, às margens da rodovia Castelo Branco. Lugar alto, bonito, verde, rico e poético. Inspirava sonhos carregados de desejos terrivelmente ecológicos de vida silvestre, campestre, natural, caipira.

Os preparativos para a viagem nos deixavam deliciosamente excitados. Tudo era motivo de risos e brincadeiras. Meu pai se orgulhava de poder nos oferecer esse grande prazer, ficava inchado, contente, feliz por nos ver felizes.

Partíamos ainda na calada da madrugada. O garnisé da vizinha já nos fazia imaginar o que viria pela frente. Cí, meu irmão, na maioria das vezes, era o último a acordar. Eu e meu pai nem sequer passávamos pelo sono e quando o velho despertador soava, aí sim é que começava a sonhar, só que acordado, no rumo da ilusão de criança sonhadora.

A viagem era calma a bordo do espaçoso DKW, cujas portas se abriam para a frente, como se estivessem nos recebendo com braços abertos, para nos levar ao destino com muita segurança, tendo no volante a patola de Seu Jordão. A expectativa de chegarmos ao destino era tão grande que não percebíamos as horas passando. Saíamos de Piracicaba rumo à Tietê. Passando por dentro da cidade, comprávamos cequilinhos de coco na padaria dos Schincariol, próximo ao Cemitério. Saíamos na direção de Porto Feliz e só parávamos no garapeiro, lugar encantado que além do caldo de cana geladinho, servia-nos com uma deliciosa rapadura, paçoquinha de amendoim e o tradicional melado de cana, que guardávamos com muito cuidado para comermos.

Agora tudo valia, menos desobedecer os pais, senão … fim de férias.

Enquanto sonhava acordado, sentado sobre a imensa rocha que solitária se erguia no alto da colina, podia avistar ao longe, ainda que raramente, alguns caminhões que timidamente inauguravam a rodovia Castelo Branco lá embaixo, levando cargas de otimismo e progresso, da Capital, rumo ao promissor interior do Estado.

A vida na fazenda do Vavate era simples, mas para a garotada, tinha tudo a oferecer, principalmente a comida, feita no fogão à lenha, com cheiro de fumaça. A rede na varanda para balançar, o leite da vaca ainda quente na caneca com açúcar às 4 da manhã, o orvalho gelado na envernada, o frescor da relva umedecendo a pele, o cântico da sabia laranjeira no terreiro, e o galo impondo o seu respeito a toda a vizinhança, fazia florescer o encanto rústico da estampa limpa da vida que sempre sonharia ter. Andávamos de carroça, a pé, a cavalo, por toda a vizinhança, puxando as rédeas do “Branco” e do “Prata”, galopando emoções, sensações e muitas alegrias.

Uma certa vez, Jesus me segurou com as mãos. Passeávamos tranqüilamente , eu como sempre com o “Branco”, Mário meu primo a bordo do “Prata”, quando resolvemos disputar um derby. No páreo, os dois melhores jockeys do pedaço, e aí …- Foi dada a largada! Disparei na frente, mandando o reio. Mário lá na poeira, desesperado. A linha de chegada era em frente a uma pequena capelinha que repousava pacata no caminho da fazenda. E, tome reio. Passou a capela. Alegre vencedor. Mãos no freio, e cadê do cavalo desgraçado parar. Puta pau! O bicho não queria saber de prosa. Só pedaço de casco que voava. O rabo dele na horizontal com o vento, o meu na vertical, cortando prego. Ô cagaço danado, achei que ia me danar. Puxei a rédea com toda a força, quase arranco a queixada do eqüino desembestado, e nada… Aí, lembrei-me de rezar, fiz o sinal da cruz com o joelho batendo na cara e, não é que o cavalo resolve parar. Não acreditei que seria possível, mas foi.

Ao lado do cafezal havia uma venda. Aquelas de beira de estrada, que cheira fumo em corda, tem pinga com carqueijo na prateleira da parede, maria mole com mosquito no balcão, sardinha salgada na lata, lingüiça pendurada no pau e caipira na porta contando “causo” e cuspindo no chão. E, era lá que íamos comprar o que faltava para o almoço. Voltávamos lambendo Qui-suco pela estrada. No caminho, estórias de saci pererê, lobisomem, drácula, mula sem cabeça, era isso que rolava nas prosas da molecada. E, na curva lá do fim da descida, foi que numa tarde, quase à noitinha, ouvimos um terrível e apavorante gemido que vinha do alto do enorme eucalipto às nossas costas. Não teve um que não tivesse largado o chinelo pra pegar depois. Mas tarde vim saber que era o rangido dos galhos da imensa árvore que se esfregavam ao sabor do vento.

Lá morava o Pedro, cara feio, esquisito, bituca de paia na boca, paiêro véio na cabeça e invariavelmente os pés descalços no chão. O cara tinha um solado natural que fazia inveja à fábrica de pneus, nunca usara sapatos, só no enterro do Vavate, que não conseguira acompanhar pois não teria podido andar de dor nos pés.

Me lembro da cara do “Mineiro”, grande figura, trabalhava na ordenha na mangueira da fazenda, tinha uma só calça com dois remendos de outra cor bem na bunda, para lembrar-nos sempre do que acontecera com ele. Naquela época, meu tio não tinha o costume de mochar as novilhas, e o gado era chifrudo como o Demo. E, tinha uma vaca daquelas desgraçadas de brava, que pra sossegá-la, Baiano sentava o reio na bicha, mandava pernadas, socos, torcia-lhe o rabo até a malvada se aquietar. Um dia, no vacilo do Mineiro, ela cravou-lhe os cornos, que vararam seu intestino, mandando-o para além da cerca, longe do currau e no caminho quase se encontrou com Deus. Não morreu, remendou a calça e fez amizade com a vaca.

Marcos Conceição, meu primo, filho do Vavate, casado com Neninha, irmã de meu pai. Era metido a peão, montava em touro. Eu o admirava por isso. Ele sabia até laçar, coisa muito difícil. Hoje, faz programa de pescaria na TV. Um belo dia montou num bezerro. O animal não gostou, mandando-lhe para cima, e no final do movimento parabolóide, depositou-o com a cara enterrada na merda. E, sabe, achei-o depois da cena com uma grande cara de bosta. Só risadas!

Várias estórias poderia contar de Bea, a sagüi, Zêla, a bugio, Mário Antônio, o fumeiro, Zeca, o louco, Bernardo, Bernadete e Matheus que já está descansando ao lado do Pai. Enfim, dos primos que fizeram minha infância mais feliz. Porém, o tempo passa e a vida alcança estágios cada vez mais distantes das épocas em que o sorriso não saía do rosto, o prazer de viver tinha a força de um orgasmo, e a vontade de ser alguém nos fazia fortes em desejo, repletos de esperança, mas incompletos ainda na carne e no pensamento.

Não consigo dimensionar os limites da fazenda, mas me lembro que tinha como vizinho o sítio de Tio Edú, casado com Ondina, outra irmã de meu pai. Era um sítio pequeno, com uma casinha pendurada no topo da montanha, e uma bela vista à frente. Do outro lado, as terras do poderoso Zé Miséria, que mais tarde iria trocar as terras de Vavate, aproximadamente uns 300 alqueires paulistas por uma caminhonete Rural Willis cor de abóbora ano 1966, e um punhado de promessas. Vavate morreu disso.

criado por giordanocarlos    9:13 — Arquivado em: Causos

4.3.06

Endurece, apodrece e cai

Endurece, apodrece e cai - Carlos Giordano Jr.

Na Serra da Canastra, tudo é magia.

Saindo de Divinópolis em Minas Gerais, encontramos caminhos verdadeiramente deliciosos rumo às diversas cachoeiras que ali estampam a paisagem e que na maior parte do ano têm suas águas a uma temperatura bem refrescante, convidando sempre a um mergulho.

Para quem gosta de aventura, um veículo com tração nas quatro rodas é a chave para um mundo inexplorado. Caminhos tortuosos, muito barro, rios e riachos para atravessar e caminhadas na mata são estímulos necessários para o encontro com a Natureza ainda intocada.

Dando a volta na Canastra pelo Chapadão da Babilônia, depois de muito tempo, chegamos à Casca D’Anta, quase em São José do Barreiro, com 86 metros de queda livre, a água chega a pulverizar-se com o vento oferecendo um maravilhoso visual. Mais alguns quilômetros e já dentro do Parque Nacional, encontramos a nascente do Rio São Francisco, antigo Opará, na linguagem indígena que significa Rio-Mar.

O Velho Chico, que levará em suas entranhas, histórias e lendas dos povos ribeirinhos rumo ao mar já nas Alagoas, rasga Minas em Três Marias, Pirapora e Januária, chegando a Bahia onde recebe as ofertas que lhe são lançadas em Bom Jesus da Lapa. Banha no seu vale em Petrolina e Juazeiro pomares carregados de uvas e mangas trazendo riquezas para a população e finalmente despeja nas águas salgadas do mar toda sua epopéia.

Pude estar por ali algumas vezes com a família e com grandes amigos.

Acampamos e fizemos comida com fogo de chão. Curtimos tudo o que podíamos, até mesmo o desespero de perdermos os filhos emaranhados na mata por alguns minutos.

Mas o causo que quero contar é outro.

Numa manhã em companhia do Carlinhos e do André, partimos para mais uma cachoeira perto de Piunhí, depois de São Roque de Minas, do outro lado da Canastra. Depois do café reforçado na pousada, no meio da trilha, bateu aquela vontade louca de poluir o ambiente. E não fiquei só. Cada qual escolheu a sua moita e mandou ver no mato. Fazer o que?

Continuamos a caminhada, e fui surpreendido com uma insuportável coceira na cabeça de baixo, naquela que muito respeito e admiro. Mas coçava demais… Parei para verificar o estrago e ali estava… Duas enormes picadas de muriçoca que me pegaram atrás da moita, bem na ponta do poderoso.

Sou alérgico a muriçocas.

Chamei Carlinhos pra ver o estrago e ele caiu na gargalhada não se importando com a minha dor. Aquilo me incomodou o dia todo.

À noitinha, já na pousada liguei pra casa, com uma dificuldade de sinal no celular e contei pra minha esposa, que aguardava ansiosa pela nossa volta.

- Você não acredita o que me aconteceu….

- Ai meu Deus, o que foi agora?

- Estou com algo que não parece meu, queria te mostrar.

- Conte o que foi?

- Muriçoca, cê não vai acreditar.

- Onde?

- Na pistola.

- E agora?

- Tá linda.

- Como assim?

- Agora tá enorme, dura e roxa, pena que é capaz de apodrecer e cair.

E caiu. Mas caiu foi só a ligação.

Coitada.

criado por giordanocarlos    21:56 — Arquivado em: Causos

2.3.06

Comendo a cadelinha

Comendo a cadelinha - Carlos Giordano Jr.

Na subida da Bernardino de Campos, la no bairro Alto é que eu comecei a enxergar o mundo do lado de fora da “famiglia”. Primeiro pela vidraça do quarto de minha mãe, que dava pra rua, onde eu e meu irmão ficávamos ansiosos aguardando Zelão, o louco, que babava, e que subia a enorme ladeira dizendo coisas que só ele conseguia entender, mexendo com as pessoas, fazendo barulho e batendo nas janelas. Eu acho que ele comia criancinhas. Puta medão! Depois, por outro ângulo, pelo quintal, onde brincávamos alegremente, sem perigos estranhos.

Tínhamos o “Aga”, um capa preta legítimo, pastor alemão, que freqüentara aulas de adestramento de cães, e então aprendera a fazer de tudo, até quando meu pai tivera perdida a lista com todos os comandos de voz que o cão fôra treinado a obedecer. Como o animal não tinha o conhecimento da língua portuguesa, Aga ficou sem serventia, só criava pulgas e comia galinhas. É, tinha galos, galinhas e pintinhos no nosso quintal. Minha mãe criava. Eu brincava. Meu pai matava. Nós todos comíamos, principalmente o cachorro.

Um dia ele mudou o cardápio e virou o herói do quarteirão.

Tenente Benedito, meu finado avô, vinha caminhando tranqüilamente, perto do bar do Branco, lá embaixo, no pé do morro, junto de sua cadelinha de estimação, quando fôra surpreendido subitamente por um tremendo cachorrão preto, com o voraz desejo de comer-lhe a cadela, e talvez, mesmo apesar de velho, ele também. Foi quando começou a gritaria, da cadela, do meu vô, e da moçadinha da rua, que devia estar dizendo:

- Pega, mata e come!

Meu pai, que segurava o Aga em frente da casa, soltou-o …

- Pega, Aga, Pega!

O cachorro preto virou sabão, o Aga herói da rua, a cadelinha debutou na redondeza, virou mocinha, e meu avô teve que mudar de ceroulas.

Tenente aposentou-se como primeiro sargento no Exército em Itú. Ganhava aquele tanto, guardava metade. Tinha dinheiro. Minha avó, “Dor Lena”, reclamava da miséria, fazia bolo de fubá com erva doce todo sábado à tarde, com intenção de reunir a família em torno da mesa.

criado por giordanocarlos    9:46 — Arquivado em: Causos

10.2.06

BARRANQUEANDO A BEZERRA

Barranqueando a bezerra: Carlos Giordano Jr.

Na sua casa ali na beira do rio, ele foi contando…

-Lembra do Antenor Fulano?

O causo é que o tal Antenor, filho de um funcionário da Sucrerie, a Companhia Francesa proprietária do velho Engenho Central de Piracicaba, gostava de fazer suas farras junto com a turma do Tiro de Guerra.

No auge de seus vigorosos dezoito anos, Antenor e os amigos saiam para paquerar as meninas da já conhecida e encantadora Rua do Porto. De papo em papo, tomavam umas e outras e logo começavam a fazer algazarra, o que acabava incomodando os moradores ribeirinhos.

- Ô Zé! Ocê num viu seu fio ontem ali na cocheira?

- Vi não. Revoltado com a pergunta, negava se defendendo o velho funcionário.

Revoltado porque naquela época, era comum a turma da pesada, passar o final da noite barranqueando as bezerras da cocheira do Engenho do outro lado do Rio. E seu filho era um deles. Sempre negando e contrariando debaixo dos tapas na cabeça, os ensinamentos do pai.

À noitinha, a turma esperava a bezerrada se amansar e amarrava então suas patas com o cinto do Tiro de Guerra que era ótimo pra isso, segundo consta, pois tinha vários furos onde se podia travar a fivela. Feito isso, mandavam ver nas coitadas. Uma verdadeira festa.

Para piorar, às vezes, passava por lá o próprio, aquele, o tal funcionário encarregado justamente do trato dos animais, pai de Antenor. Saía no grito com a molecada, prometendo mandar bala de cartucheira pra espantar aqueles verdadeiros demônios. Seu medo era um só… Um dia, ter a certeza de encontrar o Antenor por ali.

Dito e feito.

Numa noite de calor, a lua riscava o remanso do rio, oferecendo uma iluminação além do normal. Seu Zé ficou na espreita, alongado no mato, engatilhado, só esperando. A molecada chegou fazendo arruaça e logo laçando as patas das bezerras com o tal cinturão. Calça pra baixo, tiro pra cima e pernas pra que te quero… Maior correria.

No dia seguinte, Seu Zé limpando o curral, encontrou nada mais nada menos do que o tal cinto enlameado no meio do estrume. Que sorte. O sargento foi avisado e…

- Vista fina no soldado sem cinto! É o que sugeriu o Capitão.

-Agora pegamos o malvado. Resmungava o fiel funcionário.

Na fila indiana, na hora da vistoria da tropa…

- Nenhum cinto faltando, Capitão. Bradou o sargento em alto e bom som.

A turma passou mais de um mês alternando e emprestando o cinto daquele que obrigatoriamente deveria faltar para não entregar o colega. E o Antenor, dono do cinto, nunca foi pego.

 

Abraço pro amigo Orlando Louvadini, grande cozinheiro e contador de causos.

criado por giordanocarlos    20:50 — Arquivado em: Causos

5.2.06

Margô - A mulher do galinho

MARGÔ: A MULHER DO GALINHO Carlos Giordano Júnior

Depois disso ninguém acreditaria em mais nada.

Quando nasceu, Margarida fôra o nome que recebera de seu pai, numa tentativa quase dantesca de retratar o impossível, estampando na menina a meiguice de uma flor.

Os anos se passaram. Seu pai, desapontado com o resultado de tanta luta em vão, teimando em transformar seu estranho comportamento másculo perante seus amigos, expulsou a promissora Margô de casa, que da pequenina flor que era, nessas alturas, já tinha restado somente o talo. Margô foi à luta. Logo arranjou um biscate de servente de pedreiro numa obra do Metrô da Capital. Dava duro durante o dia, suava a camisa como qualquer peão. Batalhava a coitada, e olha lá do safado que bolinasse Margô. Não tinha pra ninguém, saia na pancada com qualquer um exigindo respeito. Com esse seu jeito, vivia sempre só.

Um dia, tentou arranjar namorada. Não deu, faltou “algo” no relacionamento. Infeliz, Margô quis acabar com tudo se atirando no Tietê. Não conseguiu afundar. Boiou lá na frente e foi retirada do lodo por uma viatura do Corpo de Bombeiros. No pronto-socorro, que de pronto só tinha o nome, Margô fez amizade com uma tal do seu tipo, que já mais amadurecida na idéia, usando sapatos maiores, lhe aliviou o sofrimento ensinando-lhe algumas fórmulas de auto-aceitação e reconhecimento do amor próprio. Ficou sabendo que havia uma tal revolução sexual, onde homens queriam usar saias e mulheres das mais cobiçadas já estavam usando cuecas, tudo isso com o aval da sociedade e dos meios de comunicação, pois vira confirmada a estória num acreditado programa dominical de televisão.

Margô teve alta médica. Saiu do Hospital toda mudada, diferente, capaz de tudo. Num impulso de tentar ver seus valores reconhecidos pelos seus colegas de trabalho, não teve dúvidas, passou numa loja de animais domésticos e comprou um pintinho.

-“Se podem usar cuecas, por que não posso ter meu próprio pinto”.Pensava a pobre e ignorante Margô.

Na obra foi logo apelidada de “A mulher com pinto”… Não se importando com o apelido, sempre tratou bem do bichinho. Andava pra cima e pra baixo com o pintinho, sempre, logicamente escondido dentro de sua cueca nova.

Margô era autêntica, e o principal é que estava em cima da moda. Logo foi invejada no bairro. Todas queriam ter um igual…Nunca se vendera tantos pintinhos como então.

Por sua iniciativa, Margô virou capa de revista, ficou famosa e fizeram até um “Clip” com ela naquele programa dominical da tevê. Que virada!!! Ah! Como Margô era feliz… Se seu pai soubesse, a chamaria de volta com os braços abertos.

Margô ganhou bastante dinheiro com publicidades, comprou carro importado, casa grande com piscina, mas se esqueceu daquele que com o tempo se transformara num tremendo galo com crista e esporas.

Um dia, gravando um comercial de televisão, o galo resolveu cantar ainda de dentro da cueca…có-có-ró-có!!! Margô, desesperada deu-lhe uma porrada, e o pobre galo, na defensiva, cravou-lhe as esporas na virilha. E, como o bichinho não se acalmava, resolveu enfiá-lo no primeiro buraco que encontrou…

O buraco estava contaminado!

O galo, que não pediu pra entrar, morreu tentando sair…

Margô, que já tinha perdido o pinto, morreu de infecção na vagina.

O dono da granja ficou rico com as doações de frango que recebera.

criado por giordanocarlos    12:23 — Arquivado em: Causos

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