Na sombra de um coqueiro

Divirta-se com Causos, Crônicas, Poesias, Família, Fogão de lenha, No pé do coqueiro, Tocando a Tuba. (Vedada pelo autor a Criação de Obras Derivadas) Você não pode reproduzir, alterar, transformar ou criar outra obra com base nesta.

31.8.06

A Escola

A ESCOLA

Carlos Giordano Jr.

     Em 1969 estava estudando em um dos melhores Institutos de Ensino do Estado. A estrutura física era incrível, pois dispúnhamos de salas de desenho, artes, ciências, biologia, biblioteca e teatro com piano onde recebíamos aulas de música, isso tudo por conta do desejo de ter em seus filhos a realização do objetivo educacional, elaborado pelo eficiente corpo docente daquela Instituição, qual seja o de preparar o aluno para sofrer menos na vida.

     Nessa mesma época, embora muitos duvidassem, Neil Armstrong tinha ido dar um passeio na Lua, e eu aqui na Terra passeava tranqüilamente a caminho da escola. Morava na Treze de Maio, em frente ao “Paraíso das Cabras”, imenso terreno baldio, onde caprinos pastavam docemente, comendo restos da feira-livre do sábado. Naquele local também se instalava anualmente o Circo “Orlando Orfey”, para o delírio da garotada. A pé, descia a Treze de Maio, virava a Visconde do Rio Branco rumo ao Palmeirinhas, passava perto da casa da Olívia Carçuda, lá da família dos “polône”, onde desaguava o esgoto que vinha do Campo do XV, que fôra construído onde dantes houvera um lindo bosque silvestre, o qual era cortado por um bucólico fio d’água, que então canalizado por conta da construção do estádio, ia dar a céu aberto justamente na casa da Olívia, onde caçávamos guarú, com a intenção abominável de comê-los vivos para aprendermos a nadar. Era o folclore. E, seguia virando a Rua São José até a Alfredo Guedes, passando pela fábrica de balas “Beré”, depois, logo na esquina, um cheiro delicioso de café perfumava todo o bairro, cheiro este vindo da torrefação do famoso Café Morro Grande. E, antes de cortar caminho pela pracinha da Igreja Bom Jesus me deliciava com a possibilidade de ganhar uma bolacha de algum funcionário num dos vitrôs da fábrica Júpiter, que funcionava ali no largo, ao lado da fábrica de Macarrão Aurora, que era do mesmo dono. E, mais uma quadra, chegava no portão da Rua Bom Jesus já no Sud, aproximadamente quinze minutos depois de sair de casa. Na volta o mesmo percurso, só que com a barriga roncando de fome.

     Às vezes meu Pai ia buscar-nos com seu DKW 1967, motor de dois tempos, fedendo óleo queimado…coisa muito boa. Levava uns dezesseis minutos de viagem para chegarmos em casa!

     Mas, minha primeira experiência que me fez sentir o peso da vergonha e o calor do sangue enrubescendo a face, foi quando depois de um daqueles copos de leite, senti aquela vontade insuportável de cagar. Era criança ainda. Sei que corri para o banheiro que ficava ao lado da sala de aula, tinham dois, masculino e feminino, e para meu sufoco, encontrei-os ambos fechados, em uso. Bati, pedi, implorei, chorei, e quieto caguei. Caguei em mim mesmo, nas calças, nas pernas, no corpo. Caguei nas risadas dos colegas, na cara da professora, que não sabia se me limpava ou se me expulsava da sala. Caguei no choro doído e sentido de criança abandonada, ali no canto, só, triste, fedido e cagado. Que vergonha! Foi legal.

     Graças a Deus nunca me chamaram de cagão. 
    

criado por giordanocarlos    10:36 — Arquivado em: Crônicas

21.8.06

Viajando na realidade

Viajando na realidade

Rafaela Giordano

As drogas existem, apesar de serem proibidas pela legislação e pela sociedade, num momento em que o Governo retoma o assunto, tentando mudar seus conceitos, estudando a possibilidade de liberar seu uso. De um modo geral, a encontramos nos mais diferentes lugares e com freqüência regular. Dando uma falsa sensação de prazer, ela está em companhia principalmente de jovens e de crianças nas festas, nas escolas, nas ruas, e até mesmo dentro de casa levando ao vício, a dor e em algumas vezes à morte.

 
Com a suposta liberação de seu uso, os drogados ficariam mais à vontade para consumir, teriam mais facilidade para comprar e possibilidade de usar com mais freqüência e em maior quantidade, levando-os a uma total dependência doentia. Os traficantes e os vendedores teriam que concorrer agora com o comércio legal, fazendo seus lucros diminuírem até ao ponto de abandonarem o negócio, o que seria muito bom, pois sem o dinheiro, não teriam como comprar armas, diminuindo a violência urbana.

 
O Governo poderia arrecadar com a liberação através dos impostos gerados na comercialização das drogas, alegando investir esse dinheiro em recuperação de drogados, nos centros de desintoxicação, em medicamentos, em profissionalização e outros. Porém sabemos que isso não irá acontecer.

Dentro de casa, no seio da família, aprovada a liberação, os pais teriam dificuldades para argumentar com seus filhos sobre o uso das drogas, o que geraria mais um conflito entre eles. Filhos agora convictos de que o erro passou a ser aceito pelas autoridades, teriam bons motivos para defenderem seus fracassos.

Portanto, acreditamos que a liberação do uso de drogas poderá agravar ainda mais a situação no País, uma vez que, com a falsa promessa de liberdade do indivíduo, os valores da família e da sociedade seriam derrotados por força de uma proposta infundada e injustificável.

criado por giordanocarlos    22:50 — Arquivado em: Fala pra mim

20.8.06

Maestrina Cíntia Pinotti

Maestrina Cíntia Pinotti

Pelos idos de 1978 comecei e não tive coragem de continuar. Dona Cidinha Mahle oferecia curso gratuito para contrabaixo na famosa Escola de Música de Piracicaba, na esperança de conseguir alguns candidatos a tocar na Orquestra.

Meu professor se chamava Sandor Molnar e era muito competente, mas nem por isso conseguiu fazer com que continuasse no estudo. As aulas infelizmente começavam às 12h30 depois do sinal soar no Sud Mennucci e terminava às 13h30, mas tínhamos que continuar estudando depois da aula, para aperfeiçoarmos as técnicas no instrumento.

Começamos eu e Walter Luis Valentini, o Waltão.

Os dedos ficavam em carne viva até criar um bom calo. Eu parei e Waltão virou músico dos bons tocando hoje como profissional na Orquestra Sinfônica de Campinas.

Naquela época tudo era divertido. Enfiamos-nos no Coral da Escola que era regido pelo maestro Ernest Mahle e sua amada Cidinha. Éramos uma boa turma de amigos que nos divertíamos muito com as cantorias e apresentações.

Junto de nós estava a Cíntia, que era embalada por sua mãe fazendo parte também do Coral. Ela parecia curtir ainda mais que todos, se dedicando sempre a estudar mais e mais querendo chegar à perfeição. Nós não, infelizmente.

Aquela fase da vida foi muito agradável, pois sentíamos na pele a suave sensação de estarmos participando de algo coletivo à bem da cultura. Promovendo cultura, fazendo música.

Logo paramos, imbuídos de outros objetivos de vida. Cíntia não. Ela continuou sempre e sempre, sem nunca desistir. Capacitou-se como que por ordem Divina a levar sua música a tantos rincões em companhia daqueles a quem se dedicaria de corpo e alma a torná-los muito mais felizes.

Hoje, maestrina e mulher de muita fibra, encanta a todos por onde passa, levando a harmonia de sons nas vozes daqueles que hoje aprenderam a amá-la e agradecendo pelo tanto que fez e que faz por todos que se aproximam da sua áurea, retribuem com suave encanto, o canto da felicidade.

Mais de setenta pessoas participam do Coral da ESALQ, onde Cíntia Pinotti é a doce maestrina. Sua força de vontade e determinação enobrecem ainda mais a sua jornada rumo à perfeição.

Atraindo pessoas da melhor idade para perto de si, oferece a eles a alegria de viver e de cantar, espantando para bem longe, todos os males da solidão. Sua importância na vida dessas pessoas não é por ela notado, pois lhe sobra simplicidade suficiente para não se importar com isso. Mas, com sua dedicação, sua força e seu carinho, conseguiu transformar a vida de muita gente para muito melhor.

Hoje, fui a uma apresentação do Coral na missa de comemoração do centenário do Lar dos Velhinhos em Piracicaba. Foi simplesmente divino. Minha mãe faz parte do coral com seus 74 anos bem vividos.

Cíntia se aproximou de mim e passando apressada disse:

- É muito bom estar ao lado de sua mãe!

Eu não pude responder. Não deu tempo.

Agora eu digo:

- Bom é o que você faz por ela.

Parabéns Cíntia Pinotti. Que Deus continue sendo generoso contigo, regendo a orquestra da sua vida, fazendo ecoar através da sua música, o verdadeiro amor que sempre dedicou ao próximo.

criado por giordanocarlos    22:06 — Arquivado em: Crônicas

15.8.06

Não perca o horário político por nada nesse mundo!

Assista o horário político

Um dia perguntaram à Dercy Gonçalves como ela podia ser tão feliz com a vida que teve, recheada de percalços e tantas decepções, e ela dando muita risada respondeu:

- É fácil cara, sempre fui ignorante. Quando a gente é ignorante acha tudo legal, não contesta nada, não pensa.

Queria ser igual à Dercy. Pelo menos até as eleições. Ficaria menos chato, menos crítico. Acho que mais feliz também.

Tenho vontade de explodir minha TV no horário político.

Se eu fosse ignorante, estaria mais feliz, como a grande maioria, escolhendo meus candidatos junto com minha família, na segurança de nosso lar, fugindo das balas perdidas, e felizes por estarmos recebendo muitos vales brindes, cestas brindes, auxílios brindes, remédios brindes e ambulâncias brindes da política pão e circo do Governo Federal.

 - Pra frente Brasil, salve a antiga seleção! Agora nova versão, com o Dunga no leme da canoa virada.

Assistam o horário político.

É muito estimulante. Assistam, é legal.

Convide os vizinhos, os parentes, aproveitem todos juntos…

Tem agora até Clodovil para Deputado Federal.

- Para o bem do Brasil, vote Clodovil. Legal.

 A gordinha horrorosa, rainha da dança da pizza que envergonhou a Nação estava lá na TV hoje, com sua carinha redondamente falsa pedindo voto. Queria ser mais um ignorante para votar nela também. Seria legal.

Tem o Rodrigo do Táxi também, que não conseguiu falar nada. Ficou calado ao lado de outro que não vi seu nome nem sei o que estava fazendo ali.

Tem uma bobinha lendo frases do gênero: pela discriminação do aborto e equiparação salarial para mulheres e coisa e tal. Vou discriminar votando nela também. Achei igualmente legal.

Na verdade, para ser político no Brasil, basta ser ignorante também e ter o firme propósito de, escurecendo nosso futuro com a sombra da mentira, trazer para o presente, a intenção de ver estampado no rosto do povo brasileiro a certeza de estar sendo novamente enganado.

E Lula que não apareceu no debate da Bandeirantes ontem!!!

Um verdadeiro ato de bravura, digno de sua espetacular carreira política.

Ele falou tanta besteira nas oportunidades que teve em aparições públicas, e principalmente nas campanhas pagas com meu dinheiro, que acho agora que deveria continuar pelo menos tendo alguma coragem de se defender em público aparecendo gratuitamente na minha TV. De qualquer forma queria muito ser ignorante para apoiá-lo também nas suas aventuras pela história do Brasil. Mas, se no meu futuro eu não for mais um ignorante, darei ao Lula, no máximo, meu total esquecimento.

Não perca o próximo horário político. Vai ser muito legal.

Assista esse circo e contrate depois com seu voto aquele que estará mais apto a trabalhar para nós no imenso picadeiro nacional.

Doe ouro para o Brasil.

Se não tiver mais, doe seu vale transporte.

criado por giordanocarlos    22:17 — Arquivado em: Crônicas

Risoto do Planalto Central

Risoto do Planalto Central e

Salmão com Salsa de Maracujá

Meu amigo irmão Fran lá do Planalto Central está cada vez mais interessado no mundo da gastronomia. Domingo ele me ligou, pedindo uma dica pro almoço.

Olha no que deu…

Escreví hoje pra ele: 

Que bom que quase deu tudo certo.

Havia dito que grudaria.  Portanto para grelhar salmão a contento deve usar grelha anti-aderente (algo parecido com a tal Geroge Foreman). Uma grelha teflon de colocar sobre a chama do fogão também é muito legal.

Uma coisa lhe adianto, se a carne soltou do couro é porque você deixou MUITO mais no fogo do que devia. O ideal é somente selar o peixe no fogo bem alto para que o suco fique no interior. Não coloque sal antes disso, pois irá desidratar o pescado que já é seco. Ele ficará com uma casquinha por fora e bem mal passado por dentro. Esse é o ponto.

Para oito pessoas, poderá fazer isso com calma, tranqüilo e depois colocar no forno por poucos minutos para aquecer. Lembre-se que todo pescado grelhado deve conter um pouco de amido para ajudar na casquinha. Coloque pouquíssima quantidade de maisena, bata com a palma da mão antes de levar ao fogo.

Salmão combina com maracujá pela sua acidez e se quiser variar, coloque um quiwi na peneira e esprema, sirva o molho ao lado do peixe pronto.

O risoto leva bastante cebola refogada no azeite para adocica-lo, não se coloca alho. Duas mãos fechadas de arroz arbóreo para cada comensal.

Frite bem o arroz com a cebola refogada. Coloque uma ou duas taças de vinho branco seco ou conhaque ou wisky. Caldo de legumes ou de carne quente se coloca sempre aos poucos.

Mexa, mexa e mexa com uma colher de pau, colocando o caldo sempre aos poucos. Assim solta o amido e dá liga no risoto.

Pimenta do reino moída na hora.

Quando estiver al dente, junte duas boas colheres de manteiga para dar brilho. Junte uma boa porção de parmezão ralado para ligar.

Tomates secos rasgados com rusticidade e levemente misturados ao risoto.

A rúcula fresca por cima de cada porção servida por você diretamente no prato do amigo.

Fiquei com uma puta fome.

Abraço pra negadinha de Brasilia.

criado por giordanocarlos    10:20 — Arquivado em: Fogão de lenha

2.8.06

Carta à minha amiga Figueira

Carta à minha amiga Figueira

 autora: Nathalia Giordano

12 anos

Desde que tudo começou, o mundo era mais bonito, havia mais árvores e flores.

O homem quis melhorar seu modo de vida e assim acabou agredindo a Natureza.

Vejam só no que deu:

“Querida Figueira”,

Espero que você esteja bem.

Aqui na Amazônia as coisas não vão nada bem. Tenho uma horrível notícia para te dar. A Dona Quaresmeira, nossa amiga, morreu. Cortaram-na para fazer papel.

Lembro que ela me contava daquele riozinho que passava ao lado de sua raiz. Perto dela, havia um povoado. As crianças iam sempre brincar naquele ribeirão.

Certo dia, uma indiazinha foi pegar mel num enxame que estava num dos galhos da Dona Quaresmeira e acabou se distraindo e se perdeu de seus amigos. Sem saber aonde ir, acabou passando a noite conversando com ela, sentada nas suas raízes até de manhã, quando seus amigos vieram buscá-la.

Depois disso, Dona Quaresmeira, lembrava dela com muito carinho, pois ela percebeu que aquela indiazinha era uma defensora da natureza.

Ela contava-me também dos animais que aproveitavam suas sombras para descansar e se proteger da chuva. As abelhas que levavam o pólen para sua colméia, estavam sempre alegrando o ambiente junto daquelas lindas flores.

Infelizmente, Dona Quaresmeira morreu muito triste e sem nenhuma esperança.

Aquele riozinho havia ficado muito poluído e sem nenhum sinal de vida. Acabou secando e fez com que o povoado acabasse indo embora para a cidade em busca de empregos e de uma vida melhor. Seus amiguinhos, os animais agora correm riscos de extinção por não terem proteção e nem refúgio. Algumas abelhinhas sumiram, pois as flores que moravam embaixo dela, secaram e as outras foram pegas e levadas pelo homem para o cativeiro, pois queriam uma produção maior de mel.

Antes de morrer ainda me disse que soube que em algumas cidades já existe escassez de água, pelo desperdício do homem, e que depois disso começaram a buscar água no subsolo.

- E se acabar a água do subsolo também, como iriam viver? Perguntava ela para si mesma.

Ai, ai, amiga Figueira, reze por mim, para não ter o mesmo fim da Quaresmeira… Uma folha de papel para o homem desperdiçar e acabar nos matando a todas para fazer ainda mais.

Imagino que você também está muito preocupada com tudo isso.

Te amo muito e boa sorte na busca da sua sobrevivência.

Beijos,

Sua amiga,

Arvorinda

criado por giordanocarlos    22:45 — Arquivado em: Fala pra mim

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