Na sombra de um coqueiro

Divirta-se com Causos, Crônicas, Poesias, Família, Fogão de lenha, No pé do coqueiro, Tocando a Tuba. (Vedada pelo autor a Criação de Obras Derivadas) Você não pode reproduzir, alterar, transformar ou criar outra obra com base nesta.

11.5.06

A corrança da negada de Brasília.

Corrança em Brasília

Carlos Giordano Jr

Se você num é de Piracicaba, dificilmente vai entender o texto abaixo:

 “Mario, queorqueagor? Agor é quatro or, or dimbora, vô pega minha magrela e dar uma vorta na escola agrícola”

Se também não riu da frase acima, é porque nunca veio à Piracicaba.

Num sô chegado. Nem ligue. Quano a fubeca do seu amigo ta perto da sua, ocê pode gritar CORRANÇA. Isso dá o direito de pegar sua bolinha de gude e jogar bem longe para não ser morto. Igual político em Brasília. O povo ta chegano perto da gente do mar, e um grita lá no fundo:

- CORRANÇA.

Num sobra um pra contá as paia. Negada sarta de banda, sái disgueio. O gentarada lazarenta.

Mas em Piracicaba lazarento serve pra tudo, ou quase tudo, já dizia Cecílio Elias Neto na sua obra Dialeto Caipiracicabano “ARCO, TARCO E VERVA”.

Meu irmão é um puta nego lazarento. (Nota-se que ele é super legal)

Aqueles cara são muito lazarento. (Nota-se que são da barra pesada)

Meu padrinho é lazarento na cozinha (sabe quase tudo de fogão)

Aquela muié é lazarenta de boa. (quase santa)

Por isso, em Pira vorta e meia se diz:

Os político de Brasília são tudo uma cambada de lazarento, num tem voia de trabaiá não, só qué tungueá o povo e tira o deles da chiringa. (não precisa de tradução).

Na hora do pegapacapá negadinha sarta fora. Vaimbor tudomundo, finge que vão tirá água do joeio.

Nói tem que tacá na peida dessa negada.

CORRANÇA.

criado por giordanocarlos    20:46 — Arquivado em: Crônicas

Bolo de Fubá com erva doce

Bolo de Fubá com erva doce

Esse bolinho é pra Lia, minha amiga virtual, quando ela passar por aqui na sombra desse coqueiro.

Ela tem um blog especial endereçado a compreensão e entendimento das coisas da vida.

Intimidade Absoluta

http://theojabour.blog.terra.com.br/

Vá até lá e confira.

Bom dia.

criado por giordanocarlos    9:11 — Arquivado em: No pé do coqueiro

10.5.06

Urubú na grande tela

Urubú na grande tela

Carlos Giordano Jr.

Toda manhã de Domingo, meu pai nos presenteava com “cenlão” cada um, e eu e meu mano descíamos a Rua Moraes Barros com destino certo às dez da matina na porta do famoso Politeama. Cinema bonito, espaçoso, onde curtíamos fitas memoráveis, com direito a risos e choros.

Antes da sessão comprávamos balas num bar ao lado do cinema, ainda na praça José Bonifácio onde hoje está edificado o Banco Itaú. Na esquina tinha uma pastelaria, que também servia caldo de cana à distinta freguesia que perambulava pela praça. Na outra esquina, estava o Daytona, antiga lanchonete que fôra substituída pelo atual Banco Sudameris, local perigoso, onde toda a garotada era proibida pelos pais de freqüentar, pois, ali se encontravam de tudo o que era ruim, como sanduíches com pózinho, coca-cola com bolinhas, bebidas com drogas para viciar criancinhas, e tudo o que era desconhecido pelos mais velhos absorvidos psicologicamente como negativos à boa formação moral dos filhos.

Já existia a possibilidade de flertar alguém, mesmo que remota, mas existia. Havia um repúdio em vestir calça-curta nos meninos, e nas meninas, trancinhas e maria-chiquinhas eram proibidas, pois haveriam de tornar evidentes a falta de idade para a paquera. Mesmo assim, apesar de tudo muito recatado, coroado de muita timidez, nós nos sentíamos verdadeiramente independentes, capazes, projetos insólitos de vida adulta.

A manhã de Domingo era tão esperada, que fazia da semana uma fração de hora. O filme não era o principal, mas o que valia era a possibilidade de estar lá, ao lado, ou pelo menos perto daquela garota que achávamos bonita, encantadora, graciosa, e que por ela, imaginávamos estar terrivelmente apaixonados, porém desprovidos de coragem humana para dizer-lhe isso. Amor de Platão, quanto mais longe melhor.

A primeira menina que me lembro por achá-la bonita e inatingível foi a Tânia Elizabeth. Me recordo vendo-a toda vestida de branco, com rendinhas, fitas em laço às costas, sapatinhos brancos de verniz e tiara na cabeça, ornamentando seus belos cabelos encaracolados e negros, correndo e brincando de pega-pega na escola. Nunca pude falar isso à ela, embora a tivesse visto várias vezes na sessão matinê.

As possibilidades de êxito na conquista de uma garota eram tão remotas, que nos faziam desistir antes de tentarmos alguma coisa com elas, pois os mais velhos, garotos idosos de doze, treze e até catorze anos eram os mais cobiçados pelas meninas de dez anos, e eu com nove, coitado…nem pensar. Imaginava que com o tempo haveria de chegar a minha vez, porém quando tive por poucos dias (365) os catorze anos, as garotas que me interessavam, tinham interesse pelos garotos de dezoito, e vou lhes dizer que não tive muita chance com elas, pois sempre tive cara de bebê Jonhson. Barba nunca veio na cara, nem pro bigodinho de malandro.

Existia também o cine Colonial na Rua Benjamim Constant, ao lado do Posto de Gasolina de mesmo nome. Ali, sempre tivemos mais chances com o sexo oposto, mas não com garotas, e sim com as pulgas que infestavam o local, tornando a sessão comédia, verdadeiramente hilária, piada pura, maior coceira, só gargalhadas.

Vou mais longe quando lembro do cine Paulistinha, lá na Paulista. Que inferno, já naquela época as pulgas foram comidas pelos piolhos, os chatos estavam gordos de sangue.

Um dia soltaram um urubu dentro do cinema, na hora da sessão. A ave saiu desembestada rumando à luz da tela num vôo único, ímpar e derradeiro, pois se estatelou no pano torcendo o pescoço com a porrada. Fim de sessão. Só risadas.

O cinema naquela época era bom pra surdos, mudos e até para daltônicos (alguns filmes eram mudos e em preto e branco). Só não prestava muito para cegos, a não ser na hora do intervalo ou no fim da fita na hora de ir embora. Maior barato.

criado por giordanocarlos    22:21 — Arquivado em: Causos

9.5.06

Zito flambado no Perequê

Zito flambado

Carlos Giordano Jr.

Foi no verão de 1984, quando pegamos nosso Fusca zero bala da falecida Cia. Atlantic de Petróleo, e nos metemos na estrada rumo ao litoral. Sem grana como sempre.

Zito, Cristina, eu e minha adorável Lúcia enchemos o Fuscão de muita alegria, adrenalina e sonhos de liberdade.

Zito gostava de tudo certinho, tinha acabado de conseguir emprego de engenheiro numa empresa de concreto, não tomava Sol nem morto, debaixo da desaprovação da sua Cristina, que reclamava incansavelmente da brancura “Rinso” (essa eu tirei da baú da minha avó) de Zito. Era meu amigo já da infância feliz que tivemos em Piracicaba.

Cristina também, amiga da Lúcia, morava lá na XV de Novembro, perto da casa alegre da Tia Leni, era exigente como só e morria de rir com as palhaçadas que fazíamos quando estávamos juntos. Nossa vida era uma grande piada. Que delícia. Éramos pobrinhos, mas limpinhos.

Voltando ao tema viagem, em poucas horas chegamos ao Guarujá. Naquela época era muito legal estar ali com os amigos. A água do mar ainda não cheirava a cocô e a paisagem era muito tranqüila.

Acabamos por optar fazermos uma parada para o almoço na praia do Perequê, onde existiam alguns restaurantes de pobre, mas também limpinhos. O dinheiro era tão curto que se esticasse muito, enrolava de volta pro bolso, principalmente o de Zito. (Confesso que ele vai ficar muito puto com isso, mas depois vai rir também da nossa pobreza).

Depois de muito custo, escolhemos o restaurante de melhor custo-benefício que se destacava dos demais pela sua varanda de frente para o mar calmo do Perequê.

Cervejinhas comedidas, pão com azeite Maria, tudo para encher a pança dos famintos antes da chegada do prato pedido - um filé à parmegiana que não tinha nada a ver com o estilo do local, mas tudo a ver com nossa condição financeira.

Que dureza desgraçada. Pobre só se lasca. O prato demorou mais ou menos uma hora para ser feito, e quando chegou, a fome era tanta que não esperamos Zito voltar do deságüe no banheiro lá do fundo do restaurante. Metemos o garfo na assadeira e destruímos aquele tímido filé, feito com muita falta de criatividade e de competência. E, pasmem, de repente, vem de lá do fundo um estouro absurdo, um barulho que nos assustou muito e a todos os que estavam ali presentes e em seguida, a voz de Zito, correndo e gritando: 

- Fogo, fogo, corre negada….tá pegando fogo no restaurante!!!

Zito saiu do banheiro e encontrou-se com as chamas de um botijão de gás que havia explodido na cozinha, lançando o pânico em todos os funcionários que saíram correndo atrás dele. No que Zito passou por nós na mesa, largamos até as havaianas debaixo das cadeiras e nos picamos dali. 

O saldo: Não pagamos a conta, lógico. Economizamos a grana que não tínhamos e acumulamos riso para toda uma vida pela aventura de “Zitão flambado no Perequê”.

Abraço especial pra ele.

criado por giordanocarlos    21:05 — Arquivado em: Causos

Macedônia é alí mesmo

Restaurante do Macedônio em Guaraparí - ES

Carlos Giordano Jr. 

A caminho de Porto Seguro, resolvemos parar em Guarapari no Espírito Santo para pernoitar. À noitinha fomos ao restaurante do Vicente em Nova Guarapari. Um sujeito distinto nos recebeu na porta do bistrô. Local rusticamente decorado, com uma graça impar e estilo único, abrandava o cansaço da longa viagem de 1000 km que fizemos naquele dia.

Vicente era Macedônio, e sua cozinha podia ser vista do salão onde nos acomodamos tranquilamente, mas já com o desejo insano de satisfação gastronômica. Nos serviu com uma garrafa de Grappa Italiana de primeira, deixando-a sobre a mesa como num convite para a embriagues. Não existia cardápio, não existia comanda, não existiam garçons incomodando nosso prazer.

O chef nos perguntou sobre nossos gostos. E invariavelmente, à beira da praia, pedimos lagosta, pescado assado e camarão salteado com wisky. De anti-pasto, berinjelas quase negras tostadas na chapa com azeite de oliva extra virgem, exalando perfume de ervas finas, decoradas com uma fina fatia de anchova salmonada, um molho delicado de tomates italianos coberto por lascas de parmesão, decoravam o prato deliciosamente preparado com requinte e elegância. Cervejinhas geladas aproximavam nosso paladar do desejo da satisfação que aquele momento nos traria. Porções generosas de alho curtidos no azeite com orégano eram enfeites para as torradas de pão italiano, ciabattas aquecidas no forno à lenha, cobertas com pimentões vermelhos descascados, tostados no forno e temperados com azeite e orégano ao estilo mediterrâneo fechavam o pacote de emoções.

Estávamos, eu, meu irmão e Fernando Basso, aproveitando sobremaneira os deleites daquela ocasião, que infelizmente não se repetiria mais. Vicente, como fosse um anfitrião de longa data conhecido, pilotava no fogão as panelas que se enchiam de produtos naturais e extremamente frescos, que nos foram apresentados “in natura” à mesa, antes da escolha.

Ficamos ali por algumas horas, rindo da vida e comemorando nossa alegria de viver.

A garrafa de Grappa descendo seu nível, aumentou ainda mais nosso prazer e contentamento. E lá veio Vicente com o melhor de si, nos servindo as caudas de Lagosta, gratinadas na manteiga com ervas, depois o lombo de badejo assado com molho de alcaparras e os generosos camarões salteados no wisky foram servidos com uma porção de arroz decorados com frutos do mar.

Na hora da conta, Vicente estimou um valor pela noite de prazeres macedônicos e disse que se não estivéssemos contentes poderíamos ir sem lhe pagar nada. Ele sabia servir com humildade e cativar seu cliente pelo estômago.

Não tenho mais nada que contar.

Procure Vicente.

criado por giordanocarlos    9:33 — Arquivado em: Causos, Fogão de lenha

7.5.06

Levando pau.

Levando pau…

Carlos Giordano Jr.

A idade ia passando, e a vontade de crescer era grande. Aos 9 anos aprendi a dirigir. O professor, meu pai, era muito bravo, não permitia erros. E, de fato errar no volante significa acidente e acidente é sinônimo de morte. Cruz credo!

A DKW 67 tinha 3 marchas e a alavanca do câmbio era localizada ao lado direito do volante, oposto à seta. Com motor de dois cilindros, era necessário colocar óleo misturado com a gasolina para lubrificar os pistões, o que fazia resultar da combustão uma grande fumaceira na descarga. O motor funcionava em alta rotação, portanto bastava encostar o pé no acelerador e o giro ia aumentando devagar mas sem parar, até que se tirasse o pé de medo de explodir. Para sair engatava-se a primeira marcha, e tinha que soltar o pé da embreagem bem devagar senão o carro desembestava a cantar pneu ou a apagar o motor por falta de força.

Dei muitas voltas no quarteirão, me borrando de medo, mas sem que meu pai soubesse. Coitado!

Aos Domingos antes da macarronada, tirávamos o carro para fora da garagem e então com muito carinho, tentávamos transformá-lo num carro novo. Lavando, consertando, costurando os bancos e os tapetes rasgados, tentando matar as baratas que o habitavam, polindo e escovando, passávamos horas nos divertindo. E, depois aquela voltinha na quadra. Que legal. Meu pai nunca deixava, mas de pouco adiantava.

 A sensação que se tinha era a de poder dirigir o mundo. As crianças do bairro se espantavam ao me verem dirigindo a máquina, e quando podia, saia com meu pai em curtas viagens que me permitiam treinar sempre mais minhas habilidades no volante.

Depois da DKW, veio outra e outra e outra, até comprar uma Fissori que era o modelo de luxo da DKW, branca na lata, com teto de vinil preto, painel e volante de jacarandá e bancos de couro vermelhos. Ô fissura danada por aquele carro. Só quando a Volkswagen comprou a fábrica da DKW mandando-a para a Argentina, despertou no velho o interesse em mudar de marca. Comprou uma Variant azul calcinha, depois um fusca com “vidros bolha”, um Opala SS cor de abóbora, e um lindo dia apareceu em casa com um Gordini 1969 nos dando de presente para irmos à escola. Sem carteira de habilitação. Que pai irresponsável.

Reformamos o Gordini, tratamos dele como fosse uma Ferrari. Ficou lindo. Até que uma noite, meu irmão saiu para um passeio vestindo sua camisa de Voil tradicional, e calça de Tergal, calçando seu sapato de cromo alemão, bico fino e guiando a nossa máquina, escorregou na água da chuva da Rua Boa Morte e bateu num Corcel. Meu pai tacou fogo no tomóve. Ficamos a pé.

O sonho de todo moleque é sem dúvida atingir a maioridade, e tirar a carteira de habilitação. Ser livre. E o meu também foi o mesmo.

Já tinha bastante experiência quando chegou minha vez. Haviam nove anos que sabia dirigir e, ao completar a maioridade em Outubro de 1979, me mandei numa auto-escola querendo passar por cima de todas as leis para obter minha licença. Eu era o bom no volante!

No final do ano, minha família se preparava para passar as férias no litoral, e o velho pai havia prometido que eu iria dirigindo, como presente pela conquista da habilitação. Porém, quis o destino que, no dia marcado para o exame de percurso e baliza eu, muito confiante e experiente nem me preocupasse…

Às sete da matina, em frente a Fábrica da Boys, era o primeiro da fila, e aguardava ansioso o Delegado chegar. Fiz a baliza de olhos fechados! Bingo.

- No percurso então é que vou dar um show…(pensava alto o piloto)

Entrei na Brasília junto com o Delegado, cumprimentei-o dando a partida no motor. Ele disse:

- Pronto, podemos ir.

- Certo, doutor.

Desci a ladeira e ao chegar na esquina com a Av. Beira Rio, a 80m do ponto de partida, pisei na embreagem e no freio e…Putaqueupariu, morreu o motor. Disfarcei, com cara de bosta. Dei a partida. Motor gelado, não pegou. Dei de novo. Saco. De novo…Pegou! Seu doutor ordenou:

- Vira aí e pode voltar.

- Mas, doutor, o motor estava gelado. O senhor mesmo viu…

- Pode voltar.

Estava encerrada ali minha oportunidade de ser livre, de ir e vir, de dirigir sem medo de ir preso. E, como a Delegacia de Trânsito entraria em férias coletivas, somente depois de Fevereiro do outro ano é que teríamos novo exame.

Passei o maior vexame com meu Pai e meu irmão.

Liberdade não se tem, se conquista.

criado por giordanocarlos    11:21 — Arquivado em: Causos

5.5.06

O Foguetório

O Foguetório - pela comemoração do aniversário de meu grande amigo.

Carlos Giordano Jr.

Antônio de Arruda Ribeiro Júnior, o “Frescão”, cabra bão de tudo, cheio de aventuras e experiências de vida, vive com o grande amor de sua vida, a linda e adorável Fernanda, violinista exemplar, conhecida internacionalmente, que tem por ele verdadeira paixão.

Ex-garimpeiro, ex-empresário do turismo, administrou durante anos uma equipe de vendedores de jóias, trabalhou com judeus heterodoxos em multinacional de consultoria financeira e atualmente é gestor de eventos culturais em São Paulo. É um dos maiores pianistas que conheço, embora ele despreze o presente que recebera direto do Pai Celestial, que é o seu dom para a música e seu quase limpo e fabuloso ouvido, que tem um zumbidozinho imperceptível, mas presente todo tempo, segundo ele conta.

Tive grandes aventuras com Antonio no “nosso” tempo. De foguetórios de wisky com amendoim, a um porre indescritível por conta da comemoração de seu aniversário de quinze anos.

Naquele dia festivo, fomos à antiga Brasserie, no largo da Catedral comemorar seu tão esperado aniversário. Fomos logo pedindo uma pizza de mozarela e uma garrafa de vinho Chateau Durvallier para o brinde. O papo alegre e descontraído nos levou às lembranças maravilhosas, conquistas inesquecíveis e sonhos encantadores de um futuro onde pudéssemos celebrar juntos nossa grande amizade.

Um brinde mais e outro, e mais um, até o grande feito de deitarmos três garrafas de vinho na nossa especial comemoração.

O impiedoso dono do restaurante nos pediu para sairmos dali sem contestação. Não entendemos muito o porquê do desejo. Afinal, saímos completamente tortos. Podres e felizes. Resolvemos subir a Rua Moraes Barros rumo ao Campo do Quinze, no bairro alto, onde morávamos. Era tarde e de quebra nos desviamos para a casa de nosso amigo Waltão para dar-lhe um abraço amigo e carinhosamente embriagado. Dali sua mãe Mariana, nos mandou de volta. Não vimos Waltão. Que pena!

Passamos na casa da Lílian, para fazermos uma cantoria, “na capela” como serenata contemplativa de nosso respeito e amizade. Dona Cléa, sua mãe, também conseguiu coibir a ação indesejável de nossa embriaguez. Afinal, dormi na escadaria da Igreja Bom Jesus. Antonio seguiu seu rumo não sei como até sua casa, se esquecendo do amigo quase morto para trás.

Fiquei de fogo por três dias consecutivos, parecia ter jogado areia com sal nos olhos, minha cabeça parecia explodir e ao sobreviver a essa epopéia, comemoramos hoje, no dia de seu aniversário nossos trinta anos sem beber Chateau Durvallier.

Não poderei estar nessa festa, mas estarei comemorando sempre nossa grande amizade. Embora não o veja com freqüência, tenho Antônio como meu irmão por opção, e sempre estive e estarei torcendo para o seu sucesso e felicidade.

Parabéns bicho, e que Deus, seja descomedido ao te presentear com muita paz.

criado por giordanocarlos    11:57 — Arquivado em: Crônicas

Na Fazenda do Vavate

Na Fazenda do Vavate

Carlos Giordano Jr.

Seria insuportável para qualquer mortal viver sem gozar aquelas merecidas férias de verão ao lado dos pais, irmãos, primos e parentes na fazenda do Tio Vavate em Itú, lá no bairro do Apotrebú, às margens da rodovia Castelo Branco. Lugar alto, bonito, verde, rico e poético. Inspirava sonhos carregados de desejos terrivelmente ecológicos de vida silvestre, campestre, natural, caipira.

Os preparativos para a viagem nos deixavam deliciosamente excitados. Tudo era motivo de risos e brincadeiras. Meu pai se orgulhava de poder nos oferecer esse grande prazer, ficava inchado, contente, feliz por nos ver felizes.

Partíamos ainda na calada da madrugada. O garnisé da vizinha já nos fazia imaginar o que viria pela frente. Cí, meu irmão, na maioria das vezes, era o último a acordar. Eu e meu pai nem sequer passávamos pelo sono e quando o velho despertador soava, aí sim é que começava a sonhar, só que acordado, no rumo da ilusão de criança sonhadora.

A viagem era calma a bordo do espaçoso DKW, cujas portas se abriam para a frente, como se estivessem nos recebendo com braços abertos, para nos levar ao destino com muita segurança, tendo no volante a patola de Seu Jordão. A expectativa de chegarmos ao destino era tão grande que não percebíamos as horas passando. Saíamos de Piracicaba rumo à Tietê. Passando por dentro da cidade, comprávamos cequilinhos de coco na padaria dos Schincariol, próximo ao Cemitério. Saíamos na direção de Porto Feliz e só parávamos no garapeiro, lugar encantado que além do caldo de cana geladinho, servia-nos com uma deliciosa rapadura, paçoquinha de amendoim e o tradicional melado de cana, que guardávamos com muito cuidado para comermos.

Agora tudo valia, menos desobedecer os pais, senão … fim de férias.

Enquanto sonhava acordado, sentado sobre a imensa rocha que solitária se erguia no alto da colina, podia avistar ao longe, ainda que raramente, alguns caminhões que timidamente inauguravam a rodovia Castelo Branco lá embaixo, levando cargas de otimismo e progresso, da Capital, rumo ao promissor interior do Estado.

A vida na fazenda do Vavate era simples, mas para a garotada, tinha tudo a oferecer, principalmente a comida, feita no fogão à lenha, com cheiro de fumaça. A rede na varanda para balançar, o leite da vaca ainda quente na caneca com açúcar às 4 da manhã, o orvalho gelado na envernada, o frescor da relva umedecendo a pele, o cântico da sabia laranjeira no terreiro, e o galo impondo o seu respeito a toda a vizinhança, fazia florescer o encanto rústico da estampa limpa da vida que sempre sonharia ter. Andávamos de carroça, a pé, a cavalo, por toda a vizinhança, puxando as rédeas do “Branco” e do “Prata”, galopando emoções, sensações e muitas alegrias.

Uma certa vez, Jesus me segurou com as mãos. Passeávamos tranqüilamente , eu como sempre com o “Branco”, Mário meu primo a bordo do “Prata”, quando resolvemos disputar um derby. No páreo, os dois melhores jockeys do pedaço, e aí …- Foi dada a largada! Disparei na frente, mandando o reio. Mário lá na poeira, desesperado. A linha de chegada era em frente a uma pequena capelinha que repousava pacata no caminho da fazenda. E, tome reio. Passou a capela. Alegre vencedor. Mãos no freio, e cadê do cavalo desgraçado parar. Puta pau! O bicho não queria saber de prosa. Só pedaço de casco que voava. O rabo dele na horizontal com o vento, o meu na vertical, cortando prego. Ô cagaço danado, achei que ia me danar. Puxei a rédea com toda a força, quase arranco a queixada do eqüino desembestado, e nada… Aí, lembrei-me de rezar, fiz o sinal da cruz com o joelho batendo na cara e, não é que o cavalo resolve parar. Não acreditei que seria possível, mas foi.

Ao lado do cafezal havia uma venda. Aquelas de beira de estrada, que cheira fumo em corda, tem pinga com carqueijo na prateleira da parede, maria mole com mosquito no balcão, sardinha salgada na lata, lingüiça pendurada no pau e caipira na porta contando “causo” e cuspindo no chão. E, era lá que íamos comprar o que faltava para o almoço. Voltávamos lambendo Qui-suco pela estrada. No caminho, estórias de saci pererê, lobisomem, drácula, mula sem cabeça, era isso que rolava nas prosas da molecada. E, na curva lá do fim da descida, foi que numa tarde, quase à noitinha, ouvimos um terrível e apavorante gemido que vinha do alto do enorme eucalipto às nossas costas. Não teve um que não tivesse largado o chinelo pra pegar depois. Mas tarde vim saber que era o rangido dos galhos da imensa árvore que se esfregavam ao sabor do vento.

Lá morava o Pedro, cara feio, esquisito, bituca de paia na boca, paiêro véio na cabeça e invariavelmente os pés descalços no chão. O cara tinha um solado natural que fazia inveja à fábrica de pneus, nunca usara sapatos, só no enterro do Vavate, que não conseguira acompanhar pois não teria podido andar de dor nos pés.

Me lembro da cara do “Mineiro”, grande figura, trabalhava na ordenha na mangueira da fazenda, tinha uma só calça com dois remendos de outra cor bem na bunda, para lembrar-nos sempre do que acontecera com ele. Naquela época, meu tio não tinha o costume de mochar as novilhas, e o gado era chifrudo como o Demo. E, tinha uma vaca daquelas desgraçadas de brava, que pra sossegá-la, Baiano sentava o reio na bicha, mandava pernadas, socos, torcia-lhe o rabo até a malvada se aquietar. Um dia, no vacilo do Mineiro, ela cravou-lhe os cornos, que vararam seu intestino, mandando-o para além da cerca, longe do currau e no caminho quase se encontrou com Deus. Não morreu, remendou a calça e fez amizade com a vaca.

Marcos Conceição, meu primo, filho do Vavate, casado com Neninha, irmã de meu pai. Era metido a peão, montava em touro. Eu o admirava por isso. Ele sabia até laçar, coisa muito difícil. Hoje, faz programa de pescaria na TV. Um belo dia montou num bezerro. O animal não gostou, mandando-lhe para cima, e no final do movimento parabolóide, depositou-o com a cara enterrada na merda. E, sabe, achei-o depois da cena com uma grande cara de bosta. Só risadas!

Várias estórias poderia contar de Bea, a sagüi, Zêla, a bugio, Mário Antônio, o fumeiro, Zeca, o louco, Bernardo, Bernadete e Matheus que já está descansando ao lado do Pai. Enfim, dos primos que fizeram minha infância mais feliz. Porém, o tempo passa e a vida alcança estágios cada vez mais distantes das épocas em que o sorriso não saía do rosto, o prazer de viver tinha a força de um orgasmo, e a vontade de ser alguém nos fazia fortes em desejo, repletos de esperança, mas incompletos ainda na carne e no pensamento.

Não consigo dimensionar os limites da fazenda, mas me lembro que tinha como vizinho o sítio de Tio Edú, casado com Ondina, outra irmã de meu pai. Era um sítio pequeno, com uma casinha pendurada no topo da montanha, e uma bela vista à frente. Do outro lado, as terras do poderoso Zé Miséria, que mais tarde iria trocar as terras de Vavate, aproximadamente uns 300 alqueires paulistas por uma caminhonete Rural Willis cor de abóbora ano 1966, e um punhado de promessas. Vavate morreu disso.

criado por giordanocarlos    9:13 — Arquivado em: Causos

3.5.06

Brasil - Bolívia - E agora Mané?

Brasil - Bolívia - E agora Mané?

Carlos Giordano Jr.

Infelizmente quem acreditou mais uma vez no governo, se deu muito mal.

 Mas eu diria muito mais… Aquele que trasnformou sua indústria, expondo sua necessidade de energia primária às ofertas de outro país, entregou seu sonho ao demônio. Claro, uma verdadeira estupidez…

Investimento administrado pela poderosa Petrobrás de 1 bilhão de dólares de nosso parco dinheirinho, numa aventura patética de investimento de risco absoluto, num país totalmente instável politicamente.

E, quem transformou seu carro para o gás??? Deveria se envergonhar de não acreditar na nossa fonte renovável de energia.

Coitado daquele que conseguiu financiamento para instalar GNV no seu Posto de Gasolina??? Vai pagar com a alma agora.

De quem é a culpa?

Do presidente "sabe nada", dos corruptos de plantão, dos oportunistas Bolivianos, dos interesses internacionais, da sociedade de consumo, da falta de informação ou da imbecilidade do povo brasileiro que se sujeita a caminhar sem direção para um rumo totalmente equivocado? Povo que acredita em saci-pererê, mula sem cabeça, papai noel, coelhinho da páscoa, expõe seu destino ao fracasso.

Eu, de minha parte, humildemente, acredito nas minhas convicções, acredito em Deus como meu único Salvador, acredito em Seu Plano Divino de felicidade, tendo como estrutura de base unicamente o amor direcionado ao nosso irmão. Acredito ainda na possibilidade de nos libertarmos das correntes massivas de pensamento enlatado, de opiniões estúpidas de revistas semanais que visam somente a especulação do sofrimento social. Acredito fazer de meus filhos, homens de verdade, justos e honestos, com moral intocável, soldados da razão e escravos do bom senso. Sonho muito com o dia em que nossas instituições serão fortalecidas pelo comprometimento do querer comum, básico, simples, mas humanamente necessário de nossos governantes. Acredito exclusivamente na capacidade de transformação de uma sociedade pelo investimento maciço na educação de seu povo, dando-lhes liberdade de pensamento e voz para gritar por seus anseios.

Espero que, ao experimentarmos o gosto amargo de mais esse presente, possamos nortear nossas futuras decisões nos direcionando para um final feliz.

criado por giordanocarlos    8:31 — Arquivado em: Crônicas, Tocando a Tuba

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