Na sombra de um coqueiro

Divirta-se com Causos, Crônicas, Poesias, Família, Fogão de lenha, No pé do coqueiro, Tocando a Tuba. (Vedada pelo autor a Criação de Obras Derivadas) Você não pode reproduzir, alterar, transformar ou criar outra obra com base nesta.

15.5.06

Viagem grátis

Viagem grátis

Carlos Giordano Jr.

Em meio a tanta confusão que sou obrigado a ouvir e ver pelos meios de terror-comunicação, pensei em dar uma voltinha rapidinha pelo lado bom da minha memória. Quer ir comigo? É grátis, rápido e seguramente muito prazeroso.

Segure minha mão, solte sua imaginação e vamos nessa.

Cedinho vamos tomar um bom café mineiro lá na pousada das Escarpas do Lago às margens da represa de Furnas, que fica do ladinho da Serra da Canastra em Piunhí - MG.

- Vamos sentar aqui na sacada e experimentarmos aquele pão de queijo que acabou de sair. Passa você um requeijão cremoso e prove o cafezinho delicioso. Enquanto isso, dá uma olhada na paisagem lá embaixo.

Que amanhecer maravilhoso, o lago até parece um mar de águas mansas onde repousa uma densa neblina prenunciando um dia de calor. Escute o sabiá laranjeira e o tico-tico com seu canto choroso nos acariciando os ouvidos. Ô trem bão sô.

Levanta vôo que estamos saindo. Vou te mostrar a cachoeira da escadinha na Chapada dos Veadeiros pertinho de Brasília. Vamos que ainda dá tempo… Nem gastamos três minutos ainda do nosso tempo.

Dá uma olhada lá embaixo. Ta vendo as várias quedas? Pois é por conta disso que leva esse nome.

Um dia passei aqui com Carlão, e paramos a caminhonete naquela sombra ali, pertinho do boteco e descemos para nos refrescarmos do insuportável calor daquela tarde. Quando chegamos na primeira queda, olhamos lá para baixo e deparamos com VIRGENS nuas que se refrescavam nas águas cristalinas e geladas do regato. Que emoção e quanta risada demos daquilo que parecia ser impossível acontecer. Fomos até bem pertinho delas e sem saber o que dizer, exclamei:

- Vocês vêm sempre aqui? Carlão se afogou de tanto rir.

Segure-se em mim, que vamos alçar vôo até a Cachoeira da Velha no coração do Jalapão. Olhe só que loucura, dá uma olhada na cor da água. Aqui foi gravado o filme Deus é brasileiro com o Antonio Fagundes. Vamos dar um mergulho. Se quiser tire a roupa e se sinta à vontade. Ninguém vai ligar. Alias, aqui nunca tem ninguém, por isso acho que Deus deve estar descansando por aqui.

Levanta a cabeça e veja as dunas vermelhas ainda aqui no Jalapão, lugar incrível que nunca esqueço, pois parece Su-real. Sinta o vento, sinta o calor, sinta a presença do Criador.

Vamos, vamos…. Vou te levar ali pertinho. Tá vendo aquelas dunas e lagunas? Ali estão os Lençóis Maranhenses. Vamos dar uma rasante por ali e sentir a sensação absurda de liberdade. Liberdade de pensamento. Liberdade de expressão. Liberdade de poder sentir a natureza como ela é.

- Olhe as unhas daquele cachorro!!! Que incrível. Por não terem onde serem gastas em tanta areia, crescem tanto que acabam se enrolando em torno das patas.

- Pausa para uma água de côco. Natural. Trouxe a faca? Não faz mal, vai buscar na gaveta da cozinha, afinal estamos viajando dentro da minha memória mesmo…

- Vou abrir uns quatro ou cinco e jogar na sua cabeça. Tomar banho de água de côco…Isso seu cartão não pode comprar.

Venha agora, que deu fome. Vou te levar na Maria Nilza no Guaiú em Santo Antonio, do lado de Santa Cruz Cabrália na Bahia. Olha só essa praia… Já viu coisa igual?

- Oi Maria Nilza, te apresento um viajante da minha memória.

- Que bom, seja bem vindo e que bom rever você uma vez mais por aqui.

- Pois é, vim para almoçar aqui com o pé na areia de novo, debaixo desses coqueiros.

- E já sei o que vai querer… Um risoto de polvo especial.

- O de sempre baiana porreta. Risoto de polvo recheado de sorriso, como sempre.

Sinta a brisa na face, relaxe seus olhos no azul infinito que se mescla entre céu e mar e prove dessa sombra do coqueiro deitado na rede, enquanto o perfume do fogão a lenha da Maria Nilza nos provoca o apetite.

-Curtiu, gostou, ficou com vontade de ficar? Então vamos que vou te levar para conhecer a Chapada Diamantina ali no Oeste baiano. Mas vamos passar só por cima, senão vou ter que parar para dormir em Mucugê, pois deixei ali num outro dia, o meu desejo de voltar para sempre. Espia só a Cachoeira da Fumaça e vamos embora.

Vou levar você na casa do Seu João do Camarão lá em Bom Jesus da Lapa nas margens do velho Chico. Seu João vai buscar camarão e mariscos em Salvador, encara quase 900 km de ida em ônibus pau de arara para encontrar o produto do seu comércio e volta feliz. Homem bom, um dia me recebeu em sua casa, colocando sua esposa para cozinhar uma moqueca baiana com caruru, acompanhada de camarões fritos no dendê, arroz com leite de côco e farofinha de leite cujo gosto ainda está na minha boca. Não cobrou nada não. Tirou da sua simplicidade, a alegria de receber com orgulho um paulista em sua casa. Me emocionei muito, jurei mudar meu conceito de vida. Vou deixar uma cachaça de Piracicaba pro Seu João, dar um abraço nele e vamos nos abençoar na gruta do Senhor Bom Jesus da Lapa, pedindo a Ele um pouco de paz e justiça para o nosso país.

Jantamos uma costela de Tambaqui e caldinho de piranha no Restaurante Caravela do Madeira em Porto Velho, tomamos umas cerpinhas ao som de Ziza cantando Elis Regina tendo como acompanhamento um formoso piano de cauda.

Obrigado pela sua companhia. Foi legal.

Outro dia te levo mais longe.

Basta querer. Se não quiser, ligue a TV que é mais legal.

criado por giordanocarlos    18:42 — Arquivado em: Crônicas

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